Mito da Semana: Toniolo

Este poderia ser um post da sessão "Lendas Urbanas" do blog Bolha na Rede, mas Toniolo não é mais uma lenda assinada nos muros da cidade de Porto Alegre, ele se tornou um mito da capital gaúcha.

Apesar do sobrenome onipresente, poucos conhecem a identidade desse verdadeiro mito urbano. Há mesmo quem duvide que ele exista. Mas Sérgio Toniolo é real. Morador do bairro Petrópolis, solteiro, 60 anos, Segundo Grau completo, escrivão de polícia aposentado por problemas psiquiátricos desde os 42, ele é protagonista de uma história repleta de fatos inusitados e polêmicos (tudo arquivado em jornais aqui de Porto Alegre e de outros locais do Brasil).

Antes de colocar seu nome nos muros de Porto Alegre, nosso herói Toniolo já colocava seu nome presente como um protestador. Em 1980, tornou-se recordista nacional de participação nas seções de "cartas do leitor" dos principais veículos do País, com mais de mil mensagens publicadas desde 1972 (seus assuntos iam da indignação com as fezes de cães nas calçadas às complexidades da reforma ortográfica da Língua Portuguesa, todos redigidos com clareza e objetividade dignas de um colunista profissional. A façanha chegou a receber destaque em uma reportagem exibida pela Rede Globo no Fantástico em 1981).

A partir disso, muitos políticos abriram os olhos para essa voz ativa e eternamente insatisfeita (tal qual como este blog que vos conta esta história). Em 1982, o telegrama de um ilustre senador do Partido Popular (PP) mudaria sua vida para sempre.

- Nosso partido necessita sua ajuda. Conte com meu apoio para candidatura a cargo de sua preferência. Abraços, Tancredo Neves.

Empolgado, Toniolo lança sua candidatura a deputado estadual pelo PMDB, que acabara de fundir-se ao PP de Tancredo. A Justiça Eleitoral, no entanto, barrou tais pretensões, sob alegação de que o escrivão era filiado ao PTB - o que ele não admite.
O número 1543, pretendido por Toniolo para a disputa do pleito de 1982, o acompanharia para sempre, a cada ano eleitoral, em suas "candidaturas" - inclusive a presidente da República - pelo fictício Partido Anarquista.

Apesar das bravatas, estava encerrada prematuramente a carreira política. Iniciava-se então sua fase mais promissora, a de pichador. Em 1982 Toniolo "abre os trabalhos" neste segmento com uma frase escrita sobre o calçadão da Rua dos Andradas. "Eu queria que as pessoas, das janelas dos prédios, vissem meu protesto." Após suas pichações seguiram para outros espaços públicos, e as investidas foram aumentando em freqüência e audácia, dividindo opiniões. Detestado por muitos, era tratado com simpatia por setores da Esquerda e publicações alternativas como o jornal Cobra. Um heróio da cena underground portoalegrense.


Tamanhas peripécias levaram, no ano de 1986, que a perícia médica do Estado o incapacitasse para a atuação profissional. Diagnóstico: esquizofrenia paranóide. Dizem, alguns psicólogos que isso é peculiar em indivíduos muito inteligentes e desconfiados, às vezes com mania de perseguição ou de grandeza, e acreditam serem dotados de uma missão especial a cumprir.

O mestre Toniolo se considera-se (mais do que justo) o Rei das Pichações Mundiais, e diz que não faz mais suas travessuras em residências, apenas em locais públicos e bastante visíveis. Sobre isso Toniolo tem algumas frases...

"Sou o único pichador que assina o trabalho com o próprio nome, sem apelidos ou símbolos que ninguém entende."
"Pichar a casa dos outros causa mais revolta do que o atacar um monumento, por exemplo, e não tem o mesmo efeito", justifica. "Tem que ser um lugar bem visível, que cause impacto."

Articulado e bem informado sobre diversos assuntos, sua figura é bastante popular no bairro Petrópolis, onde mora desde que nasceu. "Tenho muitos seguidores, muitos dos quais ensinei a pichar quando ainda eram adolescentes, mas prefiro agir sozinho, pois o pessoal é amador e acaba fazendo muito barulho", ressalta.


Além de 3 mil sprays e 70 mil pichações, a memória do ex-policial contabiliza também tiros, ameaças de morte, prisões, uma internação psiquiátrica e incontáveis processos por incitamento ao voto nulo, perturbação da ordem e depredação. Um currículo e tanto.

Seu maior feito e o que ganhou maior notoriedade aconteceu no ano de 1984.

Ele ligou para a Rádio Guaíba AM e falou com Lasier Martins (isso, o velho do choque) e disse que iria pichar o Palácio Piratini tal dia e tal hora. Tamanha audácia fez com que a Brigada Militar e muitos populares comparecessem no local na data e hora marcada. Com sua cabeça calva e aparência calma conesguiu furar o bloqueio da BM, quando os polciais foram se dar conta já era tarde demais: Toniolo conseguiu pichar as letras T, O, N, I, O... assim que concluiu o "L", foi detido (foto). Deu tempo até para colocar o pingo no "I".


Encaminhado no mesmo dia ao Hospital Psiquiátrico São Pedro, para avaliação, mais uma vez ele driblou seus captores. "Eu conhecia o pessoal do hospício, pois levava muita gente lá quando trabalhava no Estado". Assim que chegaram ao famoso endereço na avenida Bento Gonçalves, adiantou-se vários passos à frente da dupla de policiais civis que o conduzia e, espertamente, alertou na recepção:

- Estou trazendo dois dementes com "mania de policial": segurem-nos, enquanto vou buscar os documentos que esqueci na viatura, e tomem cuidado, pois eles são perigosos!

Com a inversão de papéis, os plantonistas correram em direção aos agentes, agarrando-os como se fossem mais dois candidatos à camisa-de-força. Quando desfeito o equívoco, era tarde demais. O ex-escrivão tinha escapado pelos fundos do prédio.

Em novembro do mesmo ano, ele divulgou que sua próxima investida seria contra o Palácio do Planalto, mas foi preso logo após deixar Porto Alegre no ônibus que o levaria a Brasília/DF. "Dessa vez, eu sabia que seria preso, e o objetivo era esse mesmo", revela.

O mais incrível é que, até hoje, não se sabe como o nome "Toniolo" foi aparecer pichado no mesmo local e data prometidos.

Ps: Toniolo cobra R$ 10.000,00 para conceder entrevista e contar detalhes ainda secretos de sua fabulosa história. Barato, para este grande mito gaúcho.

1 comentários:

Steve Ballmer disse...
on

Good blog! You people must use Vista!